cérebro eletrônico

Tatá Aeroplano, Gustavo Souza, Fernando Falcoski, Fernando Maranho e Renato Cortez são tropicalistas nos anos 2000. A banda formada pelos meninos chama-se Cérebro Eletrônico e já lançou dois álbuns: Onda Híbrida Ressonante (2003) e Pareço Moderno (2008). Tatá e Fernando Maranho (que concederam essa entrevista com exclusividade para o Descontrole) começaram em 2001 numa banda de Bragança Paulista chamada Gorpiava. Com o Cérebro, mataram a vontade de fazer um disco mais experimental (Onda Híbrida Ressonante) e depois um disco mais pop (O elogiadíssimo Pareço Moderno).

Deus e o Diabo no liquidificador é o nome e o conceito temático do novo álbum do Cérebro Eletrônico.  Uma das canções que está no site da banda, Decência, traz a história de alguém que perdeu as chaves, dormiu no corredor e acordou sem dar explicações, metendo o pé na porta. A canção soa como um pop açucarado radiofônico, sem peso, sem distorções ensurdecedoras como insistem as bandas “novas” do circuito emo-noveleiro que pretendem-se “jovens”. O tema do “descontrole” e da “falta de juizo”, apesar de ter sumido do mainstream, vez e outra é objeto de criação no meio alternativo.

Tatá Aeroplano responde para o fanzine de Campinas se o Cérebro Eletrônico acredita na força da “música de quarteirão” (termo inventado por Lobão numa conversa com Bonadio para definir o som feito pelos artistas independentes): “Acho que nós que estamos na estrada há algum tempo temos que cada vez mais ousar em todos os aspectos, já que chegamos num ponto de liberdade criativa total. As pessoas podem barrar uma música nossa na rádio, ou TV, mas o disco está lá, existe e resiste ao tempo. Não conhecia esse termo do Lobão, nem acompanhei o tal dialogo dele com o Bonadio. Mas nos dias de hoje é bem isso, podemos dizer que fazemos musica de quarteirão a principio, mas os meios internéticos estão fazendo com que as musicas ganhem vida própria com o passar do tempo. No nosso caso a última musica do disco Pareço Moderno chamada ‘Sérgio Sampaio, Volta’, de uns meses pra cá subiu de 3.000 para mais de 10.000 acessos no YouTube, isso pode ser porque a musica tem interessado pessoas que antes curtiam outras musicas da gente, ou não. Nesse disco novo, as musicas tratam de assuntos que podem parecer polêmicos, mas são coisas que estão acontecendo com a nossa geração e temos que colocar nas musicas”.

O movimento encabeçado por Caetano, Gil, Mutantes e Tom Zé não foi só musical. Havia fortes influências da antropofagia modernista e de elementos estéticos que ultrapassavam as fronteiras do som. Moda, música, teatro, literatura e política entraram no liquidificador artístico da Tropicália. Assim, havia no tropicalismo macumba, coentro, guitarra elétrica, orquestra, berimbau, sexo, literatura de cordel, existencialismo, democracia, globalização e amor, além de outros elementos temáticos, constituintes ou conceituais. O Cérebro Eletrônico come nesse prato e, evidentemente, em outros mais. Com o advento da internet a discussão sobre direitos autorais se reacende e provoca náusea nas grandes produtoras. Para os criativos, provoca orgasmos. A banda tem se dedicado a usar essa ferramenta como um meio a mais de distribuição de sua arte ou como um elemento temático, constituinte e conceitual?  Tatá Aeroplano: “Acho que direito autoral está na boca de quem cria. As pessoas que se preocuparam com essa coisa de direitos autorais a principio ficavam sentados na cadeira ganhando o seu as custas dos que criavam. Quanto a minha posição a essa história de direito autoral digo: esses senhores fizeram um monte de besteiras quando viram que a mina de ouro ia secar e a gente, que cria e tals, por um tempo ficamos sem norte, mas como o tempo é generoso e a gente tem amigos artistas pensadores como é o caso do Juliano Polimeno da Phonobase. Hoje tenho uma posição clara sobre o assunto, libero os direitos autorais para projeto de artistas e cobro de quem é das grandes produtoras, burocratas e tals. Quanto ao uso da internet, é uma ferramenta maravilhosa pra gente, usamos e abusamos dela, eu como pessoa física não sou tão internético assim… passo dias no cinema se me deixarem. Mas é importante pacas pro Cérebro”.

O Fernando Maranho também falou com a gente sobre isso: O Cérebro foi criado por dissidentes de uma banda que pregavam a liberdade criativa em detrimento de uma postura mais conservadora dos demais. Está em nosso cerne. Ao mesmo tempo damos nosso sangue pela banda e por isso precisamos tentar valorizar nossas obras no sentido financeiro, para que possamos continuar fazendo música tendo o mínimo de recursos necessários para que isso seja possível. Então nossa postura é de que a internet é libertária mas ao mesmo tempo pode ser prejudicial pois pulveriza o excesso de informações e possibilidades. Atualmente optamos por liberar algumas faixas na internet porém não a obra por completo. O ideal seria chegarmos em um ponto, talvez utópico, onde tudo pudesse ser livre ao mesmo tempo em que houvesse uma compensação automática aos artistas. Precisamos de algo que ainda não foi inventado para balancear a equação”.

A escola de Frankfurt foi bastante taxativa quando afirmou que a Industria Cultural era uma maneira de sintetizar produções artísticas. Walter Benjamim dizia que o cinema (o Tatá acabou de citá-lo como uma de suas preferências) surgia baseado na fácil reprodução, o que tirava da arte o seu status de raridade e poderia lhe trazer um caráter revolucionário. Theodor Adorno, por sua vez, dizia que as novas formas de arte (cinema e músicas curtas para tocar no rádio) seriam uma nova maneira de controle social pelas elites econômicas. Ambos eram marxistas com opiniões diferentes a respeito da cultura pop que surgia. A escola, por conta das idéias de Adorno e seus seguidores, foi acusada de ter se tornado uma espécie de protesto erudito contra a popularização do acesso à cultura. Umberto Eco chamava-os de filósofos “apocalípticos” porque eles acreditavam que tudo o que viesse a fazer sucesso comercial não poderia ter valor estético (segundo essa idéia, a arte não foi feita para ser vendida).

Por diversas vezes, na Tropicália, Caetano Veloso defendeu músicos populares. Chegou a cantar com Odair José e fazia versões de canções de enorme sucesso popular em seus discos e shows. Da mesma forma, chegou a defender veementemente uma postura erudita (como quando passou a criar letras de difícil compreensão popular). O Cérebro Eletrônico acredita que essa contradição é um elemento freqüente e enriquecedor na música contemporânea ou que se acomodou em discussões sociológicas meramente acadêmicas que em nada se relacionam com a realidade? Tatá Aeroplano responde: “No ano passado fui assistir ‘O Anticristo’ do Las Von Trier, esse filme mexeu muito comigo pelo simples fato de trabalhar o tempo inteiro com a contradição. Nós somos contraditórios, eu nessa entrevista certamente vou cometer esse ato da contradição. Eu estudei esses textos do Benjamim, do Adorno, li, reli, e faço como faço com tudo na vida, jogo no inconsciente,  esqueço de tudo  e depois busco no inconsciente, na memória algo que possa me ajudar no dia a dia. Por isso o filme do Las Von Trier mexeu comigo, lá uma hora um dos personagens diz: – “Freud está morto!”.  Dentro do contexto do filme fez um sentido, eu fiquei com essa frase na cabeça e dentro do contexto do meu mundo, coloquei numas das novas musicas da banda. Porque Las Von Trier disse isso no filme? Agora já não lembro mais… mas pra  mim fez todo o sentido escutar aquilo, está dentro do nosso espírito do tempo, tempo que as pessoas tem praticado ‘Terapia Virtual’ no Facebook, tipo, postamos algo lá pra ser afagado com comentários… e curtimos. Existe algo de estranho nos dias de hoje e Las Von Trier com todas suas contradições traz suas angustias a tona e faz a gente pensar. Isso é arte e é teoria também, por isso acho Caetano um dos maiores artistas de todos os tempos. Ele é arte bruta, poeta nato e um baita de um intelectual. Aliás li um texto essa semana do Ferreira Gullar na Folha de São Paulo questionando  o texto do Benjamim, você viu!?”

Pô, não vi. E o Fernando Maranho, o que acha disso? “O fato de você querer espalhar a sua música para o maior número de pessoas possíveis não deveria estar associado diretamente a uma baixa qualidade no trabalho dos músicos. Com o Cérebro, acreditamos que a música pode ser popular ao mesmo tempo em que não seja banal. Acreditamos nas pessoas e no potencial delas. Acreditamos no potencial cultural do Brasil. Dizer que o povo só gosta de porcaria é segregar. Nós almejamos agregar. Por isso a briga de Caetano é legítima. Os anos 90 fizeram com que as pessoas associassem sucesso com porcaria. O tal jargão “som comercial” criou uma barreira a ser quebrada por nossa geração”.

Em março do ano passado, o DJ Maurício Valladares abriu as apresentações do Just a Fest na Chácara do Jóckei, em São Paulo. Sua apresentação antecedeu aos shows de Los Hermanos, Kraftwerk e Radiohead. foi uma das canções que estavam em seu setlist. Como a banda recebeu o sucesso de crítica que Pareço Moderno obteve, tendo circulado em relevantes listas de melhores do ano? Responde o Tatá: “Pra gente foi uma grande felicidade, Dê é uma dessas musicas que cada dia que passa chega num novo quarteirão, acho que Pareço Moderno nos mostrou um caminho legal de trabalhar um disco, com calma, sem afobação, sem hype, sempre achei que as coisas tem que acontecer com muita calma e nesse disco fomos felizes, eu me arrepiei quando escutei Dê nesse dia”. Responde o Maranho: “Todas a críticas positivas servem como estímulo para seguirmos na mesma trilha. Sem elas possivelmente estaríamos nos perguntando se estaríamos no caminho certo”.

Deus e o Diabo no Liquidificador, segundo matéria da Rolling Stone, soará mais rock, “um disco de banda”, como disse o Tatá. O pequeno texto de Tiago Agostini diz ainda que será um trabalho “libertário e anárquico”. O que se  quis dizer com esses termos? É a primeira vez que a banda freqüentará temas polêmicos (maconha, religião) em seu trabalho? Fala, Tatá: “Eu sempre escrevi naturalmente sobre esses temas, mas é a primeira vez que eles chegam concentrados. Acho que chegamos numa época que precisamos levantar questões, quebrar tabus, pra mim falar de maconha, religião, sexo, sacanagem é natural … não é polêmico. A geração dos anos 60 deu um duro danado pra quebrar um monte de tabus e a nossa geração não pode jogar tudo isso por água abaixo. Por isso reverenciamos Caetano, Gil, Mutantes, Zé Celso, Glauber, Tom Zé, Oiticica, Gal, Macalé, Torquato, Raul Seixas, Sérgio Sampaio e todo mundo que pôs a cara pra bater naquela época. Acho que a nossa geração tem a missão de não deixar o mundo careta, porque o mundo anda politicamente emo”.

Desde os anos 1960 até o boom do rock nacional nos 80, muito provavelmente devido à conjuntura política do país, os artistas pareciam bastante engajados e criavam letras com teor militante e provocativo (mesmo e até especialmente no mainstream). Dos 90 até os dias de hoje as letras políticas tem aparecido com muito menor assiduidade (inclusive no mundo independente). A banda pensa que isso aconteceu porque o engajamento dos artistas era na verdade por “liberdade de expressão” tão somente e não por uma revolução política estrutural ou porque passaram a acreditar que a realidade do Brasil tenha melhorado com as políticas de FHC e Lula e não há mesmo a necessidade de usar a arte como instrumento de transformação? Tatá, responde pra gente se você e o Cérebro Eletrônico acreditam que, mesmo com as restrições impostas pelo mercado, é possível ter liberdade de expressão no Brasil: “Na música nós temos total liberdade, eu me pego as vezes me censurando de tanta liberdade que temos, e isso é maravilhoso, porque decidimos tudo sobre o disco sem ter ninguém pra dizer, isso não pode. Isso é uma grande evolução, o que não podemos é pensar em aposentar as palavras e só fazer canções por fazer. Na década de sessenta o engajamento era por ‘liberdade de expressão’, ‘contra a guerra do Vietnã’, hoje vivemos num mundo preocupante, vimos o senhor Bush invadir o Afeganistão, o Iraque, sob a bandeira questionável do combate ao terrorismo e agora eles querem pegar o Irã. Essas coisas a gente tem que ficar esperto e questionar. Caetano escreveu ‘Base de Guantánamo’ porque é inquieto e reage ao mundo. Aqui no Brasil, na minha opinião, vivemos 16 anos de muita evolução política, e pela primeira vez a gente está com auto estima. Como um pais pode prosperar se a gente acha que aqui dá tudo errado, não tem futuro? O lance é a gente fazer política,  tem MUITA coisa pra melhorar, mas muita coisa mesmo,  fico até zonzo de pensar, mas o país acertou a moeda, a economia aqueceu e agora temos tudo para priorizar a educação e claro, a longo prazo, teremos muitas melhorias, uma mudança num planeta que tem bilhões de anos leva séculos”.

O novo disco do Cérebro Eletrônico será lançado ainda este ano e sua confecção pode ser acompanhada pelo site da banda (www.cerebrais.com.br).




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